
“É nessa cultura que as massas hoje investem desejo e extraem prazer; e isso, em que pese a nós, universitários e intelectuais, mascararmos com demasiada freqüência nossos gostos de classe por trás de etiquetas políticas que nos permitem recusar a cultura de massa em nome da alienação que ela produz, quando na realidade esta recusa é da classe que gosta dessa cultura, de sua experiência vital outra, vulgar e escandalosa.” (Barbero apud Dufrenne).
Ao ler essa citação do teórico Jesús Martín-Barbero, entrei em uma reflexão quanto a questão da cultura sob uma ótica que ainda não me tinha ocorrido. Mesmo com consciência da abrangência do termo cultura, é comum creditar maior valor as produções mais eruditas, elaboradas, subalternizando a dita cultura popular, advinda das massas e consumida, abertamente, por essas. No entanto, mesmo questionado, esse nicho resiste, cresce e ocupa cada vez mais espaço. Fazendo uma comparação com a chamada “alta cultura” pode-se constatar que é produzida por poucos e com a visão destes, o que acaba alcançando uma minoria e ficando em torno sempre de um mesmo círculo social.
Se os elementos culturais são símbolos característicos de um povo é correta a insistência em determinar como superior a produção intelectual de uma minoria, chegando negar que as menifestações com outros conteúdos sejam cultura? E ao fazer-se essa negação marginalizar essa outra forma cultural e suas origens?
Busca-se todo o tempo elitizar as massas, seja essa elite em termos mais antigos de elite do saber ou em sentido atual de elite do ter, sem proporcionar-lhe condições e acessos. Esquecendo, ainda, que tais conteúdos culturais já estão instalados e que possuem interseções com os conteúdos eruditos, afinal do ponto de vista antropológico, onde tudo é cultura, somos iguais por estarmos organizados em uma mesma sociedade, vivendo sob os mesmos costumes.
A cultura popular é fato e tem base nas raízes de um povo, é preciso aprender com a convivência como funcionam seus mecanismos, criando análises a partir da perspectiva da massa. O desenvolvimento de uma sociedade parte de suas realidades e não do conceito de como deveria ser. Tem que se entender que ao simplesmente criticar as formas diversas de manifestações culturais e determinar contextos como melhores que outros, nega-se identidades, raízes e costumes e por conseqüência coloca a margem todos os pertencentes a esse “mundo”. E nesse movimento a elite se aliena ao ver o mundo apenas sob sua ótica e mascara essa alienação, ao impor com seu poderio suas idéias como paradigmas do que é correto e valoroso.
Zaira Novais
3 comentários:
Gostei do seu artigo e acredito que se todos os universitários lutassem por um ensino mais profundo, muitos não seriam descompromissados com a cultura e poderiam dividi-la melhor e amplamente, não só a um pequeno número, mas muita gente. Mas, como disse Paracelso em 1528, "as Universidades não ensinam tudo", motivo que precisou fugir protegido pela noite
Não se pode negar as raízes, por mais que se abafam elas surgem por força das irunstâncias. Parabéns pelo seu artigo.
guilherminasales@hotmail.com
Você e sua mãe pensam iguais. Mas quero lhe dizer que é compreensível que a chamada "grande cultura" sinta-se assim. Veja quantas pessoas vão a um teatro de pessoas famosas e outras de não famosos? Por outro lado, não será que os considerados menos culturais sejam inibidos na sua apresentação, não se valorizam como deveriam?
nandrade50@yahoo.com.br
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